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EDIÇÃO 61 - ABR MAI JUN 2008 - MEIO AMBIENTE
  Auditor por acaso
  É possível encontrar satisfação em qualquer coisa que se faça.
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TEXTO Revista Administrador Profissional 263 Maio 08  
A história das pessoas tem a ver com a maneira como encaram o mundo. Do contrário, bastariam seguir um manual de boas práticas, que tudo daria certo.
Dessa forma, o auditor Antoninho Marmo Trevisan iniciou uma conversa informal no CRASP (Conselho Regional de Administração de São Paulo), a convite do “Comitê Jovens Administradores”, na qual falou como um menino que sonhava ser aviador, transformou-se em dono de uma das maiores empresas de auditoria do País. “Sempre olhei para o que me cercava como desafios. Nunca deixei a vontade de fazer experimentações, apreciar coisas novas. Talvez, por isso, tudo o que faço, classifico como a tarefa mais importante a ser executada”, afirmou.

As experiências, destacou Trevisan, mostram que tudo pode ser diferente do que foi planejado. “Aprendi a gostar daquilo que precisava fazer”, ressaltou, ao dizer que nem sempre é verdade que a felicidade é trabalhar com o que se gosta. “Podemos passar a vida inteira sem fazer o que dá prazer, mas é possível encontrar satisfação em qualquer coisa que se faça”, destacou, ao lembrar que sua carreira de auditor começou por acaso. Ao acompanhar um amigo que foi preenc her uma ficha para concorrer ao cardo na consultoria Price Waterhouse, perguntou à atendente do que se tratava a função. “Essa é uma carreira que só depende de você para vencer. Com o tempo e um bom trabalho, você até pode se tornar sócio da empresa”, respondeu. Gostou do que ouviu e resolveu se candidatar. Resultado: o amigo não foi escolhido, mas ele sim.

Na época, com 19 anos de idade e recém-ingressado na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) para cursar Economia, Trevisan decidiu arriscar. Abandonou um emprego que lhe rendia três vezes mais de salário, e 12 anos depois já era sócio da empresa. Mas, por se considerar um autodidata, gostar muito de ler e de aprender, de estar na liderança dos trabalhos e, principalmente, por perceber que o País passava por uma virada, entendeu que o melhor seria abrir a sua própria consultoria. Como era de se esperar, o começo foi difícil. Sozinho, preparava cursos, dava aulas, fazia a contabilidade do negócio e limpava o local. Seus primeiros clientes foram pessoas pelas quais havia trabalhado ou sido professor.
 
Se vocação é tudo, então milhares de pessoas são frustradas. É uma questão de adquiri-la. Um professor não nasce sabendo, absorve conhecimentos no decorrer da jornada.
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Hoje a Trevisan é a única nacional entre as cinco maiores empresas de consultoria do País, com 1.400 profissionais espalhados em 14 cidades. Para competir no mundo globalizado, integrou-se à BDO, rede mundial de consultorias independentes que compartilham segurança, metodologia, capacitação e políticas utilizadas em 111 países. “Dessa forma, eliminamos um fator competitivo indesejável, o de não poder atender clientes em qualquer parte do mundo”, afirmou. Além da consultoria, a Trevisan é dona da Faculdade Trevisan, que atua em graduação, extensão, pós-graduação e MBA. No ano passado, seu curso de graduação em Ciências Contábeis alcançou o conceito máximo (5) no Exame Nacional de Avaliação de Desempenho Estudantil (Enade).

 

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Para Trevisan, na vida profissional as pessoas têm de se conscientizar de que o conhecimento adquirido nunca é completo. “Terá sempre graduações, mas ele somente será considerado apropriado a uma ou outra situação, se utilizado com bom senso”, enfatizou. Lembrou que o início de um negócio quase sempre é marcado pela falta de recursos, o que obriga o empreendedor a fazer mais do que havia planejado. Recordou que quando jovem, sua mãe levava para casa crianças com Síndrome de Down para passarem o fim de semana. “Foi uma experiência positiva, contribuiu para eu crescer sem qualquer tipo de preconceito. Outra experiência gratificante foi trabalhar com organizações não-governamentais (ONGs), instituições em que se aprende a fazer muito com pouco e a trabalhar em grupos. Por isso, a recomendação que dou é a de que, sempre que possível, a carreira profissional deve ser iniciada em uma ONG. Nela, é possível adquirir uma forma diferente de fazer as coisas, de ver o mundo”, exclamou.

Outro mito que Trevisan diz ter derrubado é o de que é preciso ter vocação para exercer bem uma atividade. “Se vocação é tudo, então milhares de pessoas vivem frustradas. É uma questão de adquiri-la. Um professor não nasce sabendo, ele absorve conhecimentos no decorrer de sua jornada”, justificou, ao dizer ser possível transformar dificuldades em habilidades. “Na adolescência tinha uma letra horrorosa, que contribuía para eu ser tímido. A solução foi entrar em um curso de caligrafia. Ao conseguir ter uma letra mais bonita, o sistema destravou e se abriu para um mundo que sequer conhecia”, exemplificou.

Destacou que os problemas devem ser tratados como parte da vida. “ Imagine uma empresa com 25 anos (Trevisan) disputando o mercado com as maiores do mundo. Os concorrentes são cada vez mais atrozes. Por isso, olhar os ploblemas e os momentos como partes do negócio ajudou-me a aprender a tratar as questões profissionais como profissionais. Uma hora você ganha e em outra você perde. Tudo deve ser contabilizado como detalhes do negócio”.

Diante das inúmeras atividades diárias, muitos perguntam como Trevisan arruma tempo para elas. Ele explica que a administração do tempo se aprende com o manuseio da agenda. No seu caso, logo pela manhã folheia cinco jornais. Como as notícias se repetem, procura ler somente o que interessa. Assim, ao visitar um algum cliente já está informado. Para escrever artigos – e até mesmo livros – não dispensa os saguões dos aeroportos e as viagens a negócios. Além de ter aprendido a delegar e a confiar, um dos segredos que revela é o de se concentrar exclusivamente naquilo que precisa ser executado. Em almoço, por exemplo, tenta ser o mais útil possível, como o de almoçar com um grupo e saborear a sobremesa com outro. Em ambas as mesas, o assunto não é outro senão negócios.

Entrar pelas portas dos fundos de seus estabelecimentos é um ritual que ele jamais colocou em prática. “Preciso saber por onde entram meus clientes. Visito seus banheiros, nunca o meu. São conceitos simples que aprendi por intuição e até mesmo copiando. Em uma viagem a Pithsburg (EUA) para visitar um parceiro, a primeira coisa que vi ao adentrar seu escritório foi a bandeira do Brasil, dando-me boas-vindas. Quando me dirigi à recepção, meu crachá estava pronto, como que se todos soubessem quem eu era. Ao chegar ao Brasil, foi a primeira coisa que implantei. Quando os clientes visitam a empresa, não precisam apresentar documentos para se identificarem. Ao entrarem no saguão uma faixa diz “bem-vindo fulano de tal”. Isso é um detalhe fundamental de educação, respeito e consideração com o cliente”, concluiu.

 

 

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