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EDIÇÃO 61 - ABR MAI JUN 2008 - CRÔNICA
  O bom doutor e o bicho mais perigoso do mundo
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TEXTO Carlos A. L. Salum

Escritor, tradutor, publicitário

 
O Brasil está constantemente sob a ameaça da epidemia de dengue.
Duvida? Então entre no portal www.dengue. org.br - e clique em “MAPAS”: você estará frente a frente com um mapa elaborado pela Secretaria de Vigilância em Saúde, mostrando com manchas vermelhas a distribuição dos municípios brasileiros infestados com o Aedes aegypti, o mosquito que transmite o vírus da dengue ao picar seres humanos.

É um mapa antigo, de 2006, cobrindo a área ocupada por nada menos do que 3.970 municípios de todas as regiões do Brasil. De lá até hoje, o número de municípios pode ter aumentado - mas ainda assim a área vermelha que você vê é, no mínimo, preocupante. O consolo possível é saber que a doença atinge também as populações de outros países não apenas na América Latina, mas ainda na África e na Ásia: são entre 50 e 100 milhões de pessoas por ano, picadas por mosquitos (ou melhor, “mosquitas”, pois são as fêmeas que  picam e podem ser transmissoras do vírus) e desenvolvendo sintomas como febres, dores no corpo, diarréia, prostração - e em muitos casos, morte.

 
Seu documentário nos lembra que muitos têm medo de cobra, de escorpião, onça, piranha, bichos que podem nos atacar se chegarmos perto - mas que “o bicho mais perigoso do mundo é o mosquito da dengue”.
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O portal está repleto de informações importantes, que muitas vezes nos passam desapercebidas. Navegando através de suas seções - Sobre a Dengue, O Mosquito, Sintomas, Prevenção, Mapas, Notícias e Febre Amarela -, o internauta fica sabendo, por exemplo, que o Aedes aegypti chegou ao Brasil nos tempos coloniais, vindo da África, a bordo dos navios negreiros que atravessavam o oceano fazendo o tráfico de escravos. Admite-se até que tripulações inteiras desses navios - e sua “carga” humana - tenham sido contaminadas e dizimadas durante a travessia (muitas semanas de viagem, naqueles tempos), dando origem a autênticos navios-fantasmas que permaneciam vagando sem rumo mar afora e alimentando histórias de assombrações entre  marujos, principalmente durante o século 17 e 18.


2 Mas se informações históricas podem ficar para depois, em épocas como a atual, que é de alerta e prevenção intensificada, o portal traz também fatos e conhecimentos indispensáveis para se compreender que essa história da dengue é mais do que apenas uma história: é um problemão. O Aedes aegypti se reproduz muito rapidamente. Ao botar os ovos na água, cada fêmea de mosquito da dengue, pode gerar até 1.000 descendentes, uma boa parte deles fêmeas, que terão a mesma velocidade e capacidade de procriação. E a única exigência para o desenvolvimento da cria é uma poça de água parada, onde os ovos se desenvolvem até formar mais mosquitos - sedentos de sangue humano e possivelmente portadores do vírus da dengue.

Outro grave complicador: os ovos podem sobreviver por até um ano no seco, sem uma gota sequer de água - podendo retomar o seu desenvolvimento e produzir larvas, se voltarem a ficar na água parada, durante esse período. E se a fêmea que botou os ovos transporta o vírus da dengue, as fêmeas da nova “ninhada”, já nascerão com a capacidade transmitir a doença.

Mas a grande atração da portal está na seção de vídeos. Um clique no link traz a página e carrega automaticamente um documentário assinado pela Globo Vídeo e apresentado pelo doutor Drauzio Varella, o médico que se tornou internacionalmente famoso pela sua abordagem social das grandes questões de saúde pública brasileira.

O bom doutor andou por este Brasil afora, visitando paisagens distantes (no Nordeste e na Amazônia, por exemplo) e também mais próximas da velocidade urbana, em grandes cidades como Recife e São Paulo - para ensinar sobre a dengue,  alertar para a ameça que o Aedes aegypti representa e para avaliar o que já se faz e o que ainda se pode fazer para combatê-la.

Ele mostra que o aquecimento global e o acúmulo de pessoas e de lixo nas cidades, especialmente nas cidades maiores, favorecem a proliferação do Aedes aegypti - e criam condições para o aumento de casos da doença. Ensina a identificar o mosquito, fala sobre suas características e hábitos e lembra o que fazer para minimizar o perigo. A tarefa, diz ele, é eliminar os possíveis criadouros, sejam eles em vasos de plantas, cascas de frutas, embalagens plásticas, copos descartáveis e uma infinidade de outros recipientes possíveis, incluindo pneus velhos (abandonados ao tempo por cidadãos comuns, bons cidadãos até) e erroneamente apontados como o principal perigo nos centros urbanos.

Seu documentário nos lembra que muitos têm medo de cobra, de escorpião, onça, piranha, bichos que podem nos atacar se chegarmos perto - mas que “o bicho mais perigoso do mundo é o mosquito da dengue”.

Epidemias graves em grandes centros urbanos - ou mesmo surtos menores em áreas circunscritas - poderiam se transformar em sérias catástrofes. Para impedir isso é preciso seguir à risca a receita do doutor: mobilizar lideranças políticas, sociais, empresariais e assim por diante - e envolver os cidadãos em geral - em projetos sérios de educação ambiental, prevenção e saneamento. Porque afinal de contas, exercer a cidadania não é somente usufruir de direitos e privilégios mas implica também em cada um fazer a sua parte, com o melhor de seu esforço.

 

 

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